foi convidado para um jantar de negócios. gravata, intelecto desenvolvido (retóricas ensaiadas frente ao espelho) e acompanhado de sua mulher. bela, vestindo prada e levando cocaína na louis vuitton.
avenida ipiranga, senador queirós – tão belos e importantes, poderiam ser confundidos com celebridades, gente de prumo, realeza. dois moleques baforando cola de sapateiro cercaram o carro pedindo moedas. e ele pensou que daria mais do que moedas – dois ou três reais até – mas o medo de abrir o vidro era maior do que a vontade altruísta. ela disse ah, deixa pra lá, acendeu um charm (é, as mulheres que fumam charm) e se olhou no espelho pensando nos deliquentes. moleques nojentos de rua. só sabem pedir.
fim do jantar. entraram no carro, fizeram o mesmo caminho. são paulo. centro. uma noite bela. onde os homens de todas as noites bebem as pingas de todas as noites. e as putas permanecem nos mesmos pontos. e as mães assistem a mais um capítulo da novela. silêncio e ele acendeu um. afrouxou a gravata. chegaram em casa e foram deitar. assim, sem falar demais ou conversar sobre a vida, o trânsito, o tráfico. e com a cabeça no travesseiro ela pensou nos dois moleques.
porque carregar pó dentro da bolsa, quando se tem dinheiro, carro e algum status, não é marginal. cheirar cola na rua que é.
eis uma grande questão…. hehehehehe
Este, sim, é um grito da sociedade. É mudo, coloquial, distal – diz tal pó, o talco das madames sem cabeça, tudo o que estas pessoas devem fazer.
É a definição da marginalidade em seu sentido chulo. Essas bonecas são mais plástico que as Barbies.
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… e eu que adoraria que a Ipiranga fosse a antiga 9 de Julho, a atual Paulista.
Recomendaram-me seus textos, até pus nos feeds do Thunderbird – vou encher a paciência agora.